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Pragas resistentes em lavouras de soja, milho e algodão estão sendo monitoradas

Gabriel Faria

Pesquisadores da Embrapa estão monitorando e fazendo testes em laboratório para identificar ocorrências de resistência de pragas, doenças e plantas daninhas às formas de controle químico ou cultural nas lavouras de soja, milho e algodão em Mato Grosso. O trabalho é estratégico, uma vez que visa antever problemas e propor alternativas de manejo que possam evitar que a característica de resistência se dissemine.

A resistência em qualquer organismo é fruto de uma seleção genética. O uso recorrente de determinado agrotóxico com o mesmo ingrediente ativo, ou de cultivares transgênicas com a mesma tecnologia (mesma proteína BT, resistência ao herbicida glifosato, etc.) pode levar à seleção de insetos, fungos e plantas daninhas resistentes ao controle. Com isso, são demandadas mais pulverizações, o custo para controle fitossanitário aumenta e pode-se chegar à perda completa de eficiência de algumas tecnologias.

Resistência dos insetos
A Embrapa Agrossilvipastoril (MT) monitora há dois anos populações de três espécies de pragas: a lagarta do cartucho (Spodoptera frugiperda), falsa medideira (Chrysodeixis includens) e a Helicoverpa armigera. Indivíduos coletados em diferentes regiões produtoras do estado são testados em laboratório utilizando-se técnicas como a de dose diagnóstica e a de curva de dose-resposta.

Resultados dos testes já identificaram populações de lagarta do cartucho resistentes ao inseticida Metomil e de falsa medideira resistente ao Teflubenzuron. No caso da Helicoverpa armigera o pesquisador da Embrapa Rafael Pitta diz ainda não ser possível afirmar se há resistência. Por ser uma espécie mais difícil de coletar, foram feitos testes com um número menor de populações.

“Não identificamos a resistência ou pelo número pequeno de amostras, ou porque a praga é mais recente no País, então está há menos tempo em contato com os produtos que usamos por aqui. Ainda não dá para afirmar se há problema de resistência”, explica.

De acordo com Pitta, no caso dos insetos, não é possível especificar geograficamente onde ocorrem mais casos de resistência. Os episódios são isolados e há situações em que a população de um município apresenta resistência, mas no município vizinho não.

Identificada a resistência, pesquisadores informam aos produtores e consultores técnicos da região, orientando-os sobre as melhores estratégias para evitar que o problema cresça. Entre as alternativas está a rotação de mecanismos de controle. Se a resistência for ao inseticida, deixando de usar determinada molécula e, sendo resistência à tecnologia BT, usando cultivares com mais de uma proteína.

Ações como o manejo integrado de pragas e a destinação de área para refúgio são estratégias essenciais para que o produtor evite ter problemas de resistência.

Doenças
Da mesma forma como é feito o monitoramento dos insetos, pesquisadores também fazem o acompanhamento de doenças. O trabalho com a ferrugem asiática vem sendo feito há mais tempo e já identificou locais de resistência aos fungicidas do grupo das carboxamidas.

Na última safra teve início na Embrapa Agrossilvipastoril o monitoramento da antracnose e da corynespora, causadora da mancha-alvo. Porém, devido à necessidade de isolamento de fungo, definição metodológica e ao elevado número de amostras analisadas, o trabalho ainda está em fase de laboratório. A expectativa é de que os resultados sejam conhecidos até janeiro do ano que vem.

De acordo com a pesquisadora da Embrapa Dulândula Wruck, estão sendo analisadas 40 amostras de antracnose e 20 de corynespora de diferentes regiões do estado. Em cada uma delas são testados os dois fungicidas mais usados no estado em diferentes dosagens como forma de identificar o nível de sensibilidade do fungo.

Embora ainda não se tenha os resultados, no campo é possível perceber a maior dificuldade dos agricultores em controlar doenças. A cada ano o número de aplicações de fungicida vem aumentando, o que onera o produtor e causa efeitos adversos, como, por exemplo, a morte de microorganismos benéficos presentes no solo. Entre as causas para o problema estão o uso repetido de produtos, sem fazer a rotação de moléculas, uso de subdoses e aplicações feitas em momentos inadequados.

Uma estratégia eficiente que vem sendo usada, principalmente para conter a ferrugem asiática, é o vazio sanitário, período em que não se pode ter plantas vivas de soja ou algodão no campo. Com a falta de hospedeiros, interrompe-se o ciclo do fungo, reduzindo-se a população.

Para Dulândula Wruck, estratégias como essa serão cada vez mais importantes para garantir a sanidade das lavouras. “A gente não pode só pensar no químico, em que você vai lá, pulveriza e pronto. O químico vai ser um componente do manejo. A tendência é a participação dele ir diminuindo. Temos de nos atentar a nutrir a planta, utilizar variedades resistentes e ter um ambiente favorável ao crescimento da raiz para que tenhamos uma planta mais resistente ao ataque. Se tenho uma palhada entre o solo e a planta, por exemplo, eu tenho uma barreira física que já dificulta que o fungo chegue até a planta”, observa a pesquisadora.

Plantas daninhas
Há três safras pesquisadores da Embrapa também monitoram o surgimento de resistência em plantas daninhas em Mato Grosso. Até agora o trabalho se deu principalmente baseado nas visitas feitas durante o Circuito Tecnológico do Milho, realizado anualmente em parceria com a Aprosoja. Com base em depoimento dos produtores e observação de campo, são coletadas sementes de plantas com suspeita de resistência e elas são cultivadas em casas de vegetação. Com as plantas que germinam são feitos testes de dose-resposta com variações de 1/8 da dose comercial recomendada até 32 vezes essa dose. O resultado indica o nível de resistência daquela planta.

De acordo com o pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo (MG) Alexandre Ferreira, já foram encontrados casos de resistência em capim amargoso, buva e pé-de-galinha em localizações diversas no estado. As regiões de agricultura mais intensa, como Médio-Norte, Oeste e Sul concentram o maior número de episódios.

Entretanto, o que mais preocupa são os casos já verificados de dupla resistência, como o da buva (glifosato e inibidores da ALS) e pé-de-galinha (glifosato e inibidores de ACCASE). Também há indícios, porém ainda não comprovados, de resistência dupla no capim amargoso (glifosato e inibidores da ALS)

“Um estudo que fizemos com a ocorrência simultânea de buva e capim amargoso com dupla resistência mostrou que o custo de controle aumenta mais de 400%”, alerta o pesquisador.

De acordo com Alexandre a boa notícia é que o nível de resistência nas lavouras de Mato Grosso ainda não é tão elevado quanto no Paraná e no Rio Grande do Sul, o que mostra que este é o momento exato para tomar as medidas necessárias para evitar o agravamento.

Com base nisso, um novo projeto de pesquisa em parceria com a Bayer dará continuidade ao monitoramento da resistência nas lavouras do estado, além de ter mais duas Áreas Demonstrativas, uma em Sorriso, na sucessão soja-milho, e outra em Ipiranga do Norte, na sucessão soja-algodão.

“Vamos avaliar diferentes sistemas de controle de plantas daninhas, com intuito de mostrar o quanto é importante o manejo. Faremos uma rotação de mecanismos de ação de herbicidas para reduzir a pressão de seleção de plantas daninhas”, afirma a pesquisadora da Embrapa Agrossilvipastoril Fernanda Ikeda.

Nessas áreas serão testadas seis diferentes formas de controle, envolvendo tanto controle químico quanto o controle cultural, como é o caso do consórcio de milho com braquiária.

Esse consórcio, inclusive, pode auxiliar no controle do Amaranthus palmeri, ou caruru-gigante. A planta invasora foi encontrada pela primeira vez no Brasil há três anos na região de Lucas do Rio Verde (MT) e vem sendo alvo de um trabalho do Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de Mato Grosso (Indea) em parceria com a Embrapa e outras instituições visando a sua erradicação.

Como se trata de um caso de planta resistente tanto ao glifosato quanto aos herbicidas inibidores da ALS, pesquisadores também estão estudando alternativas de controle. Entre as medidas testadas estão uso de herbicidas em pré e pós-emergência e a combinação deles, além do consórcio com braquiária na cultura do milho.

O consórcio milho-braquiária é eficaz, uma vez que aumenta o período em que o solo fica coberto com a cultura e a palhada, condições desfavoráveis para o crescimento de plantas daninhas, sobretudo aquelas de folha larga.

Contribuição na coleta
Uma parte das amostras analisadas são coletadas pelos próprios pesquisadores em vistorias de campo. Entretanto, técnicos e produtores podem contribuir enviando amostras de folhas doentes, insetos ou sementes de plantas daninhas quando identificam em suas lavouras indícios de resistência aos agrotóxicos utilizados ou à cultura BT.

Atualmente uma rede de parceiros tem contribuído, porém a amostra pode ser ampliada para mais regiões do estado. Para isso, entretanto, é preciso que sejam seguidos os procedimentos operacionais-padrão para garantia da viabilidade e pureza da amostra.

No caso de plantas daninhas é preciso enviar à Embrapa Agrossilvipastoril sementes daqueles indivíduos com possível resistência com georreferencimento da planta coletada. Já nas doenças deve-se enviar as folhas contaminadas. Os insetos, por sua vez, precisam ser enviados em embalagem de isopor, com disponibilidade de uma dieta específica que manterá as lagartas vivas até a chegada ao destino.

Aquelas pessoas que enviam as amostras recebem posteriormente o resultado da análise. Os dados são incorporados à pesquisa, porém sem que seja identificada a propriedade de ocorrência. Com informações da Embrapa

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