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Sorte e prosperidade

sorproFoi numa rua movimentada no trajeto entre o Museu d’Orsay e o Museu do Louvre, às margens do Rio Sena. Os três amigos, uma mulher e dois homens, turistas brasileiros, andavam apressadamente. Uma chuva fina e fria caía no início daquela tarde de outono. Falavam animadamente sobre as belezas que haviam visto no d’Orsay e sobre as expectativas para a visita que fariam ao Louvre.

Não prestariam atenção na moça que vinha em direção contrária, não tivesse ela se abaixado ao chão e pegado um objeto brilhante. Era uma aliança. Grossa, dourada, com um símbolo aparentemente hindu em sua parte interna. A jovem, com a aliança na palma da mão aberta, mostrando-a, dirigiu-se a um dos turistas. Tinha uma expressão serena, olhar meigo e sorria ternamente com boca e olhos. Embora usasse jeans e malha, seus traços lembravam os de alguma cigana misteriosa de filme ou telenovela. Quase se podia enxergar um adorno de terceiro olho (que não existia) em sua testa.

Os três amigos, que não falavam francês, não estavam entendendo bem o que se passava, apenas olhavam admirados para a moça, que falava sem parar, gesticulando a fim de facilitar a compreensão do que dizia. Queriam seguir caminho, talvez aquilo fosse um golpe, mas a moça praticamente os segurava, com os olhos e com o corpo.

Foi uma cena rápida. A moça aparentemente pegou a aliança no chão, bem na frente dos três, dirigiu-se a um deles, falou, falou, depois colocou a aliança na palma da mão dele, fechando-a em seguida. Sempre sorrindo, fez-lhe uma reverência, se despediu e foi embora.

Mesmo não compreendendo o que ela estava falando, entenderam que o diálogo devia ter sido mais ou menos assim:

_ Moço, esta aliança estava no chão. De ouro!… É sua?

_ No… I don’t speak  french!…  Je ne parle pas français.

_ Deve ser sua! Veja! É valiosa, moço! Vê este símbolo dentro? É um símbolo da sorte!

_ No… no….

_ Tem certeza que não é sua?

_ No… no… Eu preciso ir…

_ Moço, essa aliança… blá… blá… blá…. blá…

_ No… no…

– Espere. Fique com ela (colocando a aliança na mão dele). Você precisa mais dela do que eu. Ela vai te trazer sorte e prosperidade. Que Deus (Alá, Jeová, sei lá o que) esteja com você (se vai).

O que havia sido aquilo? A aliança era pesada, parecia mesmo de ouro. A moça dera a aliança, “do nada”, para um deles? Seria valiosa? Estaria ele com sorte? Teria o acontecido um significado especial?… Um clima de misticismo _ de fascínio ou de estranhamento, não sabiam ao certo _ pairava entre os três amigos.

Recomeçam a andar, pensativos e desconfiados. Segundos depois, ouvem a moça chamando-os. Viram-se e ela volta até eles. Dessa vez, fala em inglês.

_ Moço, hoje foi um dia de sorte pra você, e eu gostaria que fosse um dia de sorte para mim também. Você pode me dar algum dinheiro para eu almoçar? Até agora não comi nada.

_ Hum?… Dinheiro?

_ Isso!

_ Não… não tenho….

_ Por favor, moço! Por favor!

Ele abre a carteira, tira dois euros e entrega para a moça. Ela leva um susto quando vê as moedas. Mostra-se desapontadíssima.

_ Só isso? Muito pouco. Não! Não dá pra nada! O que vou comprar com isso? Por favor, moço… Por favor…

E insiste. E insiste mais. Incisivamente. Eles pedem desculpa. Ela não quer deixá-los ir antes que lhe deem mais dinheiro. Como se estivessem fugindo, desvencilham-se dela e vão embora.

Então era isso…

_ Eu sabia que era algum golpe! _ disse a única mulher no grupo.

_ Ah! Mas é claro que eu também desconfiei. Estava muito estranho. Só estava esperando para ver o que seria.

_ Estava estranho mesmo. Nossa! E foi tudo tão rápido. Não deu tempo nem de pensar no que estava acontecendo. Eu não estava entendendo bem…

Depois de andarem uns 300 metros, param, olham para trás e ficam a observar a moça, que já está distante. Lá vem outro grupo de turistas. Observam-na fazer a mesma coisa com eles: se abaixar diante do grupo, como se estivesse pegando um objeto no chão, abordar um deles, conversar, ir embora (ou fazer que ia embora), depois retornar, chamando-os de volta.

Era naquela movimentada rua povoada por turistas e em suas imediações que ela passava parte de seus dias. Era dali que saía seu sustento. Era uma atriz. E das boas. E devia trabalhar muito, repetindo o mesmo papel dezenas de vezes todos os dias.

A aliança? Claro que ele trouxe com ele. Vai guardar de lembrança. Quem sabe até como um amuleto da sorte? Não importaria que a “cigana” ou que a aliança fosse falsa. O que realmente teve importância é que a emoção do momento havia sido verdadeira. E em Paris!

Depois do acontecido, os amigos souberam que este é um golpe muito comum nas ruas da capital francesa, aplicado próximo a pontos turísticos. Quando você for a Paris, já sabe…

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