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Projeto em BH resgata memórias a partir de pisos e ladrilhos de edifícios

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Tudo começou como um hobby. Em suas viagens pelo mundo, a jornalista mineira Paola Carvalho, de 35 anos, ficava incomodada com o vício das pessoas de tirar fotos de si mesmas (selfies) em edifícios históricos. Ela considerava importante conhecer a memória dos locais vistados e achava pobre um registro fotográfico que não explorava os detalhes do ambiente. Foi daí que surgiu a ideia de começar a explorar melhor as fotografias a partir do local onde se pisa, por meio de registros de pisos e ladrilhos.

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Paola publicava as imagens nas redes sociais, sobretudo no Instagram, sempre com uma legenda caprichada informando a localização do piso e detalhes históricos do edifício. “De repente, amigos começaram a enviar fotos de pisos de outros lugares e, a partir de então, começamos a usar entre nós a hashtag #chaoqueeupiso. Fiquei assustada quando vi que tinha gente de outros países também usando a hashtag”, lembra.

Diante da repercussão, ela buscou a amiga e designer Raíssa Pena, de 27 anos, que agregou à ideia uma visão estética dos pisos e ladrilhos. As duas então criaram o projeto Chão Que Eu Piso e alugaram um espaço na Guaja Casa, em Belo Horizonte. O local funciona no sistema coworking, que se baseia em um ambiente onde profissionais e empresas realizam seu trabalho de forma compartilhada. O projeto também ganhou página na web e perfis no Instagram e no Facebook. A iniciativa conta com cerca de 7 mil seguidores e já tem um catálogo de mais de 7 mil fotos. Além do Brasil, há registros de Portugal, França, Espanha, Alemanha, Ucrânia, Marrocos, México, Colômbia, Estados Unidos.

A lógica das publicações é a mesma: junto à imagem há um descritivo com informações sobre o local. O projeto explora o potencial colaborativo das redes sociais. Paola e Raíssa fazem pesquisas, mas os seguidores também podem agregar informações. “As pessoas contribuem de várias formas, tanto pelas redes sociais quanto por e-mail. Recebemos registros diariamente. A gente percebe que há uma grande comunidade em todo o mundo, que se cruza no ambiente virtual e gosta de pesquisar detalhes arquitetônicos”, conta Raíssa.

A iniciativa virou também mercadoria. “Eu redesenhei estampas de pisos no computador e observei que seria possível aplicá-las em produtos. Começou de forma natural. Fizemos uma primeira coleção de cadernos com capas estampadas com pisos dos edifícios de Belo Horizonte, erguidos na época da fundação da cidade”, acrescenta Raíssa. Posteriormente, elas criaram calendários e agendas. Os produtos são vendidos de forma virtual na página do projeto e também através de parcerias com lojas de museus.

Aos poucos, o que era hobby tornou-se fonte de renda. “Vimos que há demanda e potencial para se tornar um negócio. Estamos em um momento divisor de águas, passando agora por um processo de consultoria comercial. Não éramos empreendedoras até então, mas o projeto nos estimulou a caminhar nessa direção. Ainda estamos definindo como será nossa expansão comercial”, explica Paola.

Publicações impressas
A primeira coleção de cadernos conta um pouco da história da capital mineira. Os pisos selecionados vão desde o da Estação Central, principal entrada para Belo Horizonte no final do século 19, até o dos edifícios da Praça da Liberdade, construída para receber o poder proveniente da então capital Ouro Preto. Passa ainda pelos prédios da Rua da Bahia e da Avenida João Pinheiro, onde também há diversos pisos e ladrilhos conservados do final do século 19 e início do século 20. Assim como a página e os perfis, a contracapa dos cadernos traz informações sobre os edifícios de onde foram extraídas as imagens.

Uma das fotografias que virou capa de produto é a do Museu das Minas e do Metal, na Praça da Liberdade. Ela foi enviada pelo arquiteto Cyleno Reis Guimarães, de 43 anos, que conheceu o Chão Que Eu Piso navegando pela internet e se tornou um colaborador fiel. “É possível identificar a idade do prédio pelos materiais que ele usa. O piso conta um pouco da arquitetura e da história da construção”, acredita.

As obras do edifício onde funciona o Museu das Minas e do Metal terminaram em 1897, mesmo ano da fundação de Belo Horizonte. Ele foi projetado para ser a Secretaria do Interior. Posteriormente, também sediou a Repartição de Terras, o Tribunal da Relação e a Secretaria de Educação de Minas Gerais. O edifício tem ainda em pleno funcionamento um dos primeiros elevadores de Belo Horizonte, de 1926.

Lembrança pessoais
Além da memória coletiva e histórica, os pisos também produzem lembranças pessoais. “As pessoas têm lembranças do piso da casa da avó, da igreja em que se casou, da escola onde estudou. São memórias que mexem com as pessoas e acabam estimulando uma interação e um resgate do passado”, acrescenta Paola. Pensando nisso, as duas também abriram espaço para a elaboração de produtos personalizados. “Um produto pode guardar uma história pessoal com carinho.”

Paola conta um caso curioso envolvendo a interatividade e as lembranças pessoais. “Uma vez, uma colaboradora nos enviou a foto do piso da igreja em que se casou. Uma outra seguidora comentou que era igual ao da cozinha da avó dela e que era possível sentir até o cheiro da macarronada de domingo.”

Paola e Raíssa começaram a perceber as correspondências entre pisos de Belo Horizonte e de outros lugares do Brasil e do mundo. “Postamos o piso do Memorial Minas Gerais, na Praça da Liberdade. Aí um colaborador de Paris enviou a imagem do mesmo piso em um edifício de lá. E depois, outra pessoa, mostrou que ele também se encontra na Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro.”

Para Raíssa, as coincidências podem ajudar a explicar influências históricas e também a forma como os acabamentos de muitos edifícios chegavam ao Brasil na época da colonização. Com Agência Brasil

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