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Lendo ‘Ulysses’

James Joyce (1882-1941) em Dublin

Por Flávio Marcus da Silva

Não sou crítico literário. Não entendo de literatura. Gosto de ler. E adoro livros que me desafiam. Como A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector. Os Demônios, de Dostoiévski. Graça Infinita, de David Foster Wallace. Livros difíceis, profundos e devastadores, que me sugaram para dentro com a potência de mil cavalos. Viraram-me do avesso. E me cuspiram outra pessoa. Mais madura. Mais corajosa. Livros que atacaram sem dó meu medo de morrer, de viver… Ler para mim não é só ler. Algo mais tem que acontecer. E quando leio grandes escritores, algo poderoso acontece em mim. Eles me incomodam. Tiram-me da zona de conforto. Batem em mim. Rasgam-me. Gelam minha alma. Mostram-me abismos… Ler nem sempre é agradável… Gosto disso.

Agora resolvi ler Ulysses, de James Joyce. Grande desafio. Como eu disse, não entendo de literatura. Não sei escrever sobre as 119 páginas que li de Ulysses até agora como um crítico. Só como leitor. Um leitor que ama literatura desde os 10 anos de idade e que já passou dos 40. Mais de 30 anos de leitura…

De Ulysses, o que tenho a dizer? Que é Fantástico? Incrível? Fascinante? Não. Isso é bobagem. Clichê. Ulysses não é clichê. É um espancamento. É o que vemos e sentimos depois de levar uma facada no cérebro. Estrelas cintilantes vermelhas, verdes e azuis. Pessoas na rua conversando, rindo. Sensações estranhas. Crepúsculos jamais vistos. Cheiro de bosta de cavalo a caminho de um enterro, de uma festa. Carruagens pelas ruas de Dublin. Uma jornada dentro e fora de mim, do senhor Bloom, dos outros… Delírios na praia, na igreja, no cemitério. Desejos carnais. Desejos proibidos. Memórias. Dor. Luto. Amor. Desespero. Tudo isso é Ulysses, mas não lido. A gente não lê Ulysses. Ele nos lê. Ele percorre nosso corpo. Faz-nos sentir cheiros. Masturba-nos no meio da rua, no açougue, na igreja. Ri da nossa cara. Penetra-nos o corpo, a alma. Vasculha-nos por dentro. Lê nosso sangue, nossas vísceras e intestinos. Ulysses é poderoso. É muito mais que um livro. Muito mais que um clássico. É uma coisa…

Ainda estou no começo. 119 páginas. Quase nada. Faltam 888. As primeiras 20 foram para entrar, encontrar a chave e entrar, mesmo assim correndo o risco de ser barrado no primeiro cômodo. Não fui barrado. Entrei. A linguagem é difícil, mas pura, sedutora. Como em Clarice. É coisa única. Nunca li nada parecido. Pulsante. Inebriante. Não quero largar, mas meu tempo é curto, não posso… Leio até de madrugada. Leio na academia. Sou lido… Ulysses está em mim como um tumor benigno. Ou maligno? Ainda não sei. Quero descobrir. Viagem de encantamento. Delírio de morte. Entrega. Vasculhando tudo… O que vou descobrir?

Deixem-me em paz! Deixem-me aqui no escuro. Tenho Ulysses. Sua luz. Seu frio. Que tudo mais se dane. Nos próximos dias, semanas, meses… Tenho Ulysses. 888 páginas ainda. Que bom. Que bom…

Um comentário

  1. marcio guimaraes barbosa

    Boa leitura de mais um livro, que como dizem os críticos, necessita de “fôlego”.

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