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Pelo menos um banho

pembanhO jovem professor entrou no barracão mofado que lhe servia de casa às onze da noite e se jogou no sofá da sala. Estava um bagaço. Tinha dado quinze aulas naquele dia, para quinze turmas diferentes. Suava e fedia muito. Duas bolhas tinham estourado no seu pé esquerdo durante uma aula e ardiam dentro do tênis apertado. Sua gastrite nervosa lhe queimava as entranhas. Sua boca estava cheia de aftas e exalava um bafo de gambá velho que até ele sentia, sem precisar levar a mão em concha ao nariz. Seu estado era lastimável.

Levantou-se cambaleante, tirou a roupa, entrou no chuveiro e, quase desfalecendo de cansaço, com a cabeça apoiada na parede, abriu a torneira. Nada. Não tinha água. Era dia de racionamento no seu bairro.

Saiu do banheiro, deitou-se no chão do quarto e começou a esfregar as mãos pelo corpo nu. Um pouco abaixo do peito, numa região sem pêlos, esfregou forte, extraindo da pele uma quantidade enorme de sujeira. O atrito dos dedos com a pele misturava a sujidade com o suor, formando tipo uns biscoitinhos pretos (alguns bem finos e compridos, como cobras), que caíam para os lados e se acumulavam no chão.

Depois esfregou as virilhas, onde sentiu sua micose de anos inchada e coçando. Utilizando as unhas (que ele não cortava há quase um mês), coçou muito, e quanto mais ele coçava, mais a micose inchava, e logo começou também a arder. Foi quando ele levantou as mãos, observando-as com ar satisfeito. Suas unhas estavam completamente pretas de sujeira, seus dedos cobertos de lascas de pele morta e fungo. E sua cabeça doía. Seu corpo todo tremia. Pensamentos estranhos lhe anuviavam a razão…

Continuou esfregando o corpo, que exalava um cheiro ardido, azedo, principalmente na genitália e nos sovacos. Sentado no chão, acariciou os pés suados e quentes, cheios de bolhas. Percebeu que três delas, não duas, tinham estourado. Uma estava sem pele. A ferida sangrava e ardia.

Então teve uma ideia que lhe pareceu genial. Buscou no banheiro uma lâmina de barbear e se depilou todo: cabeça, sobrancelhas, peito, barriga, sovacos, saco, virilhas, pernas e até os peitos dos pés. Colocou os pêlos numa caixa de sapato vazia, junto com a sujeira em forma de biscoito extraída da sua barriga, e foi para o quintal, levando também seis pacotes de provas que ele tinha aplicado no dia anterior para seis turmas de terceiro ano, perfazendo um total de oitocentas e trinta folhas de papel. Juntou tudo no meio do quintal (as provas, os pêlos e a sujeira) e tocou fogo. Enquanto as chamas ardiam e crepitavam, ele dançava o que para ele era uma dança da chuva, mas que, na verdade, era um surto… de loucura?

Não. Ele não estava louco. Só muito desesperado, angustiado, insatisfeito com o emprego, com o barracão, com a solidão, com a falta de tempo para ler e se divertir. A gota d’água que entornou o balde foi o fato dele chegar em casa no estado em que chegou e NEM PODER TOMAR UM BANHO! Coitado. Pelo menos um banho…

Flávio Marcus da Silva
 
Imagem: cena do filme “O Labirinto do Fauno” (México/Espanha, 2006).
 

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