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Estado de graça

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Por Flávio Marcus da Silva
Praga, capital da República Tcheca, tem cerca de um milhão e trezentos mil habitantes e 133 livrarias. Para os padrões brasileiros, é livraria pra cacete! Belo Horizonte, por exemplo, que tem quase o dobro de habitantes, possui, pelas minhas contas, não mais que dez boas livrarias, e olhe lá.

Adoro visitar cidades de muitos leitores. Nelas eu abro meu livro no trem, no metrô, num banco de praça, numa fila, e não me sinto um anormal, um excêntrico exibido, como muitas vezes já me senti aqui, na minha própria cidade, lendo em público. Eu leio porque adoro ler, e se eu leio em público (em ônibus, na academia, em consultórios médicos e odontológicos, etc.) é porque tenho pouco tempo e preciso aproveitar essas oportunidades.

Atualmente estou lendo Graça infinita, de David Foster Wallace, um calhamaço de mais de mil páginas. Até agora li 503, praticamente só na academia pedalando, na porta da escola dos meus filhos, esperando-os sair, e em casa, nas primeiras horas da madrugada. Livro viciante. Estou até emagrecendo, de tanto ler! (é que aumentei em vinte minutos o tempo de bicicleta na academia para poder ler mais, e ainda faço musculação enquanto pedalo, segurando o livro, que pesa quase dois quilos).

Graça infinita é um romance. Leio-o, acima de tudo, para me divertir, mas também para ampliar minha visão de mundo, tornar meu olhar sobre o homem e a sociedade menos quadrado, menos é-isso-pronto-e-acabou. Trata-se de um livro subversivo, extremamente crítico em relação à sociedade de consumo, na qual estamos tão profundamente mergulhados que se não formos sacudidos por um David Foster Wallace, um Roberto Bolaño, um José Saramago, etc., na literatura, no cinema, na música, no teatro e outras artes, vamos acabar achando (e muitos continuarão achando) que tudo que essa sociedade nos enfia goela abaixo é a mais pura verdade, e que o caminho baseado no sucesso pessoal = $$$$$ e no prazer egoísta é o caminho da felicidade.

Como é bom acreditar que esse NÃO É o caminho da felicidade!

Como é bom não ter a preocupação doentia que muitas pessoas têm com dinheiro e status, alimentando ódios, angústias e invejas!

Devo essa sensação, em parte, à grande literatura. Por isso adoro livrarias e cidades com muitos leitores, onde me sinto mais livre, mais forte, por estar perto de gente mais esclarecida, mais aberta a novas ideias, e, por isso, menos manipulável, menos orgulhosa.

Aqui, às vezes, sinto-me como uma aberração da natureza, um desajustado. Mas há pessoas que me entendem, que respeitam minhas opiniões, mesmo discordando delas, e que gostam de mim do jeito que eu sou. A elas, com muito carinho, dedico esta crônica.

Imagem: Praga – República Tcheca. À esquerda, a Ponte Charles, construída entre 1357 e 1402

Livrarias de Praga: AQUI

2 comentários

  1. marcio guimaraes barbosa

    Flávio,
    Por aqui ao invés de livrarias temos botecos mil, onde se fala somente de besteiras, bobagens, rindo-se de todos e de tudo como bobos na corte. Livrarias pra quê? Culturalmente é no exterior que podemos viver este clima, que é perfeito. Passo um grande tempo em livrarias, com minha filha me chamando: “Pai, tá bom, vamos embora”, mas no fim vence a paciência. Infelizmente por aqui e mundo afora ainda se vendem milhões de 50 tons de cinza, código da Vinci, Harry Portter, etc. Quanta bobagem goela abaixo.
    Abraço.

  2. Adorei a dedicatória.

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