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O gordo

ogrdoDe todos os lugares que ele frequentava, seus preferidos eram as padarias e as farmácias.

Na melhor padaria da cidade ele adorava jogar conversa fora com as funcionárias e experimentar os maravilhosos quitutes que eram preparados todos os dias para o deleite de uma clientela assídua e exigente: bolos, tortas, bolachas, pudins, biscoitos e roscas com os mais variados recheios e coberturas.

Ele era jovem, bonito, de aspecto saudável, mas seu índice de massa corporal indicava um excesso de vinte quilos de gordura, concentrados principalmente na barriga e na bunda.  

Sua profissão era dentista, mas só trabalhava no turno da manhã. O pai havia sido um grande empresário do setor metalúrgico. Morreu em um acidente de helicóptero, deixando as duas siderúrgicas que possuía para os três filhos. Os dois mais velhos, porém, não queriam que “o gordo” se metesse nos negócios da família e propuseram a ele uma boa mesada, desde que ficasse longe das empresas. Ele concordou com a proposta e continuou exercendo sua profissão de dentista pela manhã, sem se preocupar com a renda irrisória que aqueles poucos pacientes lhe proporcionavam.

Por volta das dez da manhã ele saía para comer alguma coisa na lanchonete da esquina, quase sempre uma coxinha, um pastel português ou uma empada com refrigerante. No almoço, por volta de meio-dia, saciava seu apetite voraz no melhor restaurante de comida a quilo da cidade. Depois da refeição, enquanto caminhava pela avenida (normalmente arrotando carne assada com alho e lasanha aos quatro queijos), ele pensava no que iria comer às três da tarde, sozinho, em seu apartamento.

Na farmácia, seu maior passatempo era ler e estudar a composição dos remédios.

Toda vez que renovava seu estoque de medicamentos contra rinite alérgica, ele selecionava várias caixas de comprimidos, comparava uma marca com a outra, analisando a composição química, a posologia e as contra-indicações, mas quase sempre levava a que tivesse maior concentração de fenilefrina – pois a experiência o havia mostrado que quanto maior a quantidade desse componente no comprimido, mais rápido o seu nariz se desobstruía.

Gostava também de analisar medicamentos contra flatulência, azia, dor de cabeça, hemorróidas…

Para insônia, tomava um comprimido antes de dormir, receitado por sua psiquiatra, que o aconselhava ao final de cada consulta a procurar um psicanalista. “E com urgência. Para o seu próprio bem (em primeiro lugar), e para o bem da sociedade”, dizia ela. Ele concordava sorrindo, pegava a receita e ia embora. Nunca procurou um analista.

Aos domingos procurava a mãe, uma senhora robusta de setenta e dois anos, que além de deitar a cabeça dele no colo, afagar seus cabelos e lhe dar conselhos, deixava que ele trouxesse suas roupas sujas para serem lavadas junto com as dela toda semana.

Ao chegar à casa da mãe, depois de abraçá-la calorosamente, ia direto para a geladeira, onde sempre encontrava um pudim de leite condensado ou um manjar branco com calda de caramelo. No último domingo, enquanto ele comia, a mãe contava que a filha de um conhecido deles ia fazer intercâmbio na França e que um rapaz francês chegaria em breve e ficaria na casa dos pais dela. “Grande coisa”, disse ele, com a boca cheia. “Imagina o tanto de gente se achando o máximo que vai ficar na cola desse coitado, puxando o saco dele”. A mãe riu, e ele continuou: “E vão tirar fotos dele, exibi-lo nas colunas sociais, nas festas, jantares e coquetéis… a maior chatice do mundo, a senhora vai ver”.

Terminou de comer, levantou-se da mesa e dirigiu-se até a sacada do apartamento. Ali, debruçou-se sobre o parapeito e observou o trânsito na rua. Era carro que não acabava mais. Na praça da igreja, o movimento de fiéis saindo da missa era intenso. Olhou para o céu escuro, sem estrelas, e pensou na vida – na sua vida: desde 1978, quando nasceu, até aquele momento, na casa da mãe, às vésperas de completar trinta e três anos.

Não demorou muito. Enxugou com as mãos as lágrimas que escorriam pelo seu rosto e foi até a sala, onde a mãe assistia a um filme francês na TV a cabo: “Le Scaphandre et le Papillon”.

“Você devia aprender francês…”, disse ela ao filho, concentrando-se na cena em que um tetraplégico era submetido à sua primeira sessão de fisioterapia.

“É tão bonito…”.

Imagem: “Sobremesa” (1990), de Fernando Botero

Uma versão deste conto foi publicada no meu livro “águas escuras” (2009) com o título “Trinta e três”.

Leia outros textos de Flávio Marcus da Silva na coluna Crônicas de um patafufo.

Acesse a página de Flávio Marcus da Silva

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