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Projeto ousado dos Titãs

Há cerca de três anos, quando Branco Mello, Sergio Britto, Tony Bellotto e Mario Fabre começaram a conversar sobre o próximo projeto do Titãs, havia um tom positivo de cobrança entre eles. O então último álbum da banda, Nheengatu – que marcou a despedida de Paulo Miklos do grupo -, havia sido muito bem recebido por fãs e crítica. O trabalho seguinte não poderia ficar pra trás, especialmente com mais um “desfalque” na formação original do grupo que convive há mais de 35 anos com o sucesso. “Queríamos manter o nível de aceitação de Nheengatu, fazendo algo especial, mas sem soar repetitivo. Quando surgiu a ideia de uma ópera rock, algo até então nunca feito por uma banda nacional, achamos que seria uma bela novidade”, explica o guitarrista Tony Bellotto.

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O próximo passo foi evitar semelhanças com óperas-rock consagradas, como Tommy (da banda The Who) e The Wall (Pink Floyd). “São trabalhos espetaculares, mas que serviram apenas como referência. Vimos também American idiot (Green Day) e até coisas mais underground. Um detalhe interessante é que essas óperas nasceram após as canções. Foram discos encenados. Nós invertemos esse processo”, destaca Tony. O músico conta que o agora quinteto (o guitarrista Beto Lee chegou para reforçar o time no início da “gestação” do projeto) decidiu criar o argumento e até imaginar as encenações antes de compor as faixas.

Naquele momento entraram em ação (ou na redação) Marcelo Rubens Paiva e Hugo Possolo. Com o último, Branco Mello havia trabalhado em sua ópera-rock infantil Eu e meu guarda-chuva. Bellotto explica que a experiência dos dois escritores foi decisiva para a formatação do musical. “Enquanto o roteiro era escrito, eu, o Branco e o Britto íamos compondo. A história originava canções e, ao mesmo tempo, algumas composições alteraram o roteiro. Foi um processo híbrido”, revela.

O título da ópera foi extraído de uma de suas 25 faixas. “Doze flores amarelas é uma das canções mais importantes da obra, pois narra o momento em que as Marias (as três personagens principais da ópera) decidem fazer um feitiço contra seus agressores. Além disso, é um título com boa sonoridade e que dá margem a várias interpretações”, diz Bellotto. As agressões sofridas pelas três Marias, citadas pelo músico, revelam o tema principal da trama: a violência contra a mulher. No entanto, o Titã ressalta que outros assuntos atuais, como dependência tecnológica, drogas e relação entre pais e filhos, também são discutidos na obra.

As personagens centrais são vividas pelas cantoras Corina Sabba, Cynthia Mendes e Yas Werneck. Outra presença feminina aparece com destaque. Na realidade, é ouvida. Trata-se de Rita Lee, narradora da história. “Achávamos ideal ter uma voz feminina forte na narração. Claro que pensamos de imediato na Rita! Não por ela ser mãe do Beto, mas pelo carisma dela e por tudo que representa. Felizmente, ela foi super receptiva à ideia e realizou um trabalho com muita energia, trazendo grandeza ao espetáculo”.

Data especial
Após uma pequena temporada no Sesc São Paulo, em abril, a ópera foi gravada no Teatro Opus, também na capital paulista. Três EPs, um com cada ato do musical (Abertura, Nada nos basta e O facilitador) já foram distribuídos pela Universal nas principais plataformas de streaming. Já o DVD e o CD duplo (15º álbum de carreira da banda) serão lançados no dia 13 de julho, Dia Mundial do Rock.

Na sequência, o quinteto levará o espetáculo para todo o Brasil. Branco Mello, que iniciou um tratamento de saúde no final de maio, deve ser substituído até setembro pelo consagrado baixista Lee Marcucci, que já havia tocado com os Titãs entre 2002 e 2009. Bellotto acredita que os fãs curtirão o novo repertório nos shows: “as músicas têm um pouco de tudo o que já fizemos, só que com uma textura mais nova”. A turnê passará por teatros e também casas de shows, desde que a estrutura admita os recursos técnicos (iluminação, cenários, projeções etc) utilizados no DVD.

Bellotto e os outros Titãs acreditam ter alcançado o objetivo pontuado no primeiro parágrafo deste texto. “Além de apresentarmos algo novo, buscamos de alguma forma mostrar que o rock ainda pode originar discussões. Houve um encolhimento do gênero como instrumento de protesto ou inspiração para mudanças. O rap hoje é mais atuante neste sentido”, pondera.

O músico também avalia que os Titãs tem o mérito de não ter olhado para o mercado ao decidir lançar uma ópera-rock. “Pelo contrário, né? Demos um verdadeiro ‘foda-se’. Com o apoio irrestrito de nossa nova gravadora (Universal), que foi parceira e ousada. Olhando pra trás, acho que fizemos algo parecido com Cabeça dinossauro (antológico álbum da banda, de 1986), que não parecia exatamente algo mercadológico. Era mais um suicído à época (risos). Mas acabou dando certo e se tornando um de nossos discos mais marcantes”. Com Portal Sucesso

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