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O azul dos olhos dela

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Por Carmélia Cândida
Sentada na cadeira de descanso em seu quarto, segurando um espelho, olhava seu rosto. Passava a mão sobre a pele, olhava as pálpebras caídas, as rugas. Lembrou-se dos versos de Cecília Meireles: Eu não tinha este rosto de hoje / assim calmo, assim triste, assim magro / nem estes olhos tão vazios / Nem o lábio amargo.

Não. Eu não tinha este rosto de hoje…

Era lindíssima. Tinha sido. Na juventude. Pele muito branca, olhos azuis de um azul profundo, cabelos negros. Como Branca de Neve. O corpo era esguio, medidas perfeitas, cinturinha de pilão, seios bem feitos. Encantadoramente linda.

Tinha agora uma beleza diferente, a de uma senhora de setenta e cinco anos, fina e elegante, em cujo rosto podiam-se ver traços de uma beleza inigualável na juventude. Sim, achava-se bela, mas não bela como fora quando jovem.

Deixando o espelho de lado, recostou-se na cadeira de descanso e lembrou-se da conversa que tivera depois do jantar com um sobrinho que estava prestes a completar cinquenta anos. Estavam só os dois na sala de estar, e ele falava sobre o envelhecer.

_ É, tia. Já vou fazer cinquenta anos. A gente vai ficando velho, começa a aparecer uma ruguinha aqui e outra ali, a pele vai perdendo o viço… Não é bom, não. Mas, por outro lado, é bom, sim, pois a gente ganha experiência de vida, que não tem preço. Muito mais vale a experiência que a gente ganha, a sabedoria, do que a beleza da juventude. E o que importa é a gente estar com saúde, não é mesmo?

– Ah, meu sobrinho, importa, sim. É importante a gente estar com saúde, é muito bom ganhar experiência de vida, mas isso é amadurecimento.  Agora o envelhecer em si, o envelhecimento físico, de que você está falando, é triste. E ninguém venha me dizer que não é, porque é. Uns sofrem mais com ele, outros menos e, dizem, há quem não se importe nem um pouco _ do que eu duvido. É triste  ver a juventude indo embora… ver a chegada de uma nova ruga, o cabelo raleando, o peso aumentando, os músculos e a pele ficando flácidos…

_ Ah, tia! Mas a gente ganha experiência de vida, sabedoria.

_ Isso é bom. Se bem que nem todos aprendem ou amadurecem com o passar dos anos. Agora, dizer que uma coisa compensa a outra é racionalizar.  Você está racionalizando.

_ Hum…?

_ Racionalizar é encontrar razões para. É um mecanismo de defesa, assim como vários outros que temos. A teoria psicanalítica explica. Quando estamos diante de uma realidade que não queremos aceitar, seja uma atitude, uma ideia ou um sentimento, temos a tendência de racionalizar, que é encontrar razões, justificativas ou explicações que possam nos convencer do contrário dessa realidade e, assim, nos proteger, nos confortar,  nos fazer sentir bem.

_ A senhora acha? Será que é assim mesmo?

_ Acho. A gente fala isso para enganar a gente mesmo, para não ficar triste, para aceitar a velhice com tranquilidade. Mas que é ruim, é.

Ele ficou perplexo e pensativo. Depois de sair e dar uma volta pelo jardim, retornou, encontrando a tia ainda na sala de estar.

_ Nossa, tia, a senhora me deixou triste… Eu estou pensando que é como a senhora falou mesmo.

_ Ah, filho, mas a gente não deve ficar “morrendo” por causa disso, não, nem pensando  demais. Não podemos fazer nada a respeito. É bobagem ficar paranoico.  É um fato. A gente tem que aceitar, se cuidando, claro. Tem que relaxar.  Também não é a pior coisa do mundo. Doenças, por exemplo, são muito piores.

_ Tia…  quando a senhora fala em doenças, não está racionalizando também?

_ É, não deixa de ser uma forma de racionalização… Bem, mas não vamos mudar o fato de envelhecer mesmo, não é? Então a gente tem que preocupar é em estar com boa saúde e, se estiver, agradecer por isso.

_ A senhora tem razão. Mas que é triste, é.  E a velhice vem para todos. A não ser que a pessoa morra jovem.

No quarto, ela volta a pegar o espelho. Pelo menos, o azul dos meus olhos não mudou. Azul profundo. Depois o coloca sobre a cama e pega um porta-retratos no criado-mudo. Há uma foto do dia em que completara quinze anos. Ela estava sorridente, com um ramalhete de flores nas mãos, e usava um vestido godê que lhe acentuava ainda mais a cintura fina. Como passou rápido, meu Deus! E então ela lembra Quintana: A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa./ Quando se vê, são 6 horas tempo…Quando se vê, é feira…/Quando se vê, passaram 60 anos…

Sessenta anos!

Sente o quarto abafado e vai respirar o ar fresco da varanda. A rua está deserta. Devem ser quase duas horas. Uma coruja vinda não se sabe de onde pousa no gradil. Instantes depois, vai embora, e ela acompanha seu voo.

* Texto publicado no livro “O azul dos olhos dela” (O AZUL DOS OLHOS DELA. Carmélia Cândida. Pará de Minas, MG: VirtualBooks,  2012)

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