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Nosso cheiro

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Por Flávio Marcus da Silva

Nos anos 80, meus avós e minha mãe tinham uma sapataria no centro da cidade, onde eu às vezes ajudava no atendimento aos fregueses. Uma vez uma freguesa entrou querendo trocar uma sandália, mas sem notinha, etiqueta ou embrulho que comprovasse a compra no estabelecimento, e ainda apresentando um produto que, sem sombra de dúvida, havia sido usado por um bom tempo. Quando foi informada de que a troca não poderia ser efetuada, a mulher disparou uma série de palavrões contra a moça que a atendia. Suas ofensas eram, em grande parte, escatológicas. Foi mais ou menos assim: “Quem você pensa que é ô vagabunda? O que é que você acha que tem aí dentro do seu bucho? Pétalas de rosa? Perfume? Pois fique sabendo que o seu bucho está cheio de bosta, igual ao bucho de todo mundo. Você acha que a sua bosta fede menos que a bosta dos outros?”. E a coisa prosseguiu nesse nível.

Mas o que os nossos intestinos têm a ver com a indignação da mulher na cena descrita acima? Não preciso ir aos grandes historiadores da cultura para afirmar que as fezes (assim como a morte) são facilmente associadas na cultura popular a uma ideia de igualdade, e que jogar na cara de quem se julga superior que “a sua bosta não fede menos que a bosta dos outros” alivia um pouco o peso da desigualdade gerada pelos sistemas econômicos e sociais.

Todo mundo caga. O presidente dos Estados Unidos caga. A rainha da Inglaterra caga. O presidente do STF caga. Os deputados cagam (e como!). Os ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura, Química e Economia cagam. Todos os grã-finos que aparecem nas colunas sociais cagam. E não importa se eles comem caviar com champagne ou coxinha com guaraná. Com poucas diferenças, uma refeição de R$800,00, depois de passar pelos intestinos, fede tanto quanto um PF de R$10,00.

É por isso que numa situação em que alguém se sente humilhado ou injustiçado por um pretenso ser superior, a referência às fezes estabelece uma igualdade natural, humana, que vem à tona por alguns instantes para dizer: “Você também não vale nada”.

Como dizia Fernando Pessoa: “Nada fica de nada. Nada somos”. A mulher na sapataria sabia disso e perguntou: “Quem você pensa que é? Você acha que é melhor do que eu?”.

Pascal Mercier, em seu belo livro Trem noturno para Lisboa, faz um de seus personagens dizer: “‎A vaidade é uma forma ignorada de estupidez. É preciso esquecer a insignificância cósmica de todos os nossos atos para podermos ser vaidosos, e isso é uma forma flagrante de estupidez”.

Numa sociedade como a nossa – egocêntrica, individualista e fútil –, esse tipo de estupidez é muito comum, fazendo ferver um substrato popular de igualitarismo escatológico que, ao vir à tona, fede que é uma loucura.

Pois que feda. Queiramos ou não, esse é o nosso cheiro. O cheiro de todo mundo. Não tem como escapar.

Imagem: “Nature morte aux fruits pourris”, de Catherine Cachau

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