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Bicho feroz

bifrezzO jovem Ramon caminhava sozinho no meio do mato há pelo menos uma hora. Ele tinha acordado cedo naquela manhã para subir a escadaria do Cristo, um exercício que normalmente aliviava sua melancolia crônica, ajudando-o a suportar melhor o dia. E lá no alto, olhando a neblina cinza que cobria quase toda a cidade, ele resolvera embrenhar-se pelas matas da Serra de Santa Cruz. Não quis voltar pelo mesmo caminho porque estava muito angustiado. O coração gelava, batendo forte e apertado no peito. Por isso não quis ver a escada deserta de novo, os mesmos degraus de cimento escuro, que o levariam ao mesmo ponto de partida (a cruz de madeira podre), e depois à mesma rua, à mesma casa, ao mesmo quarto, à mesma solidão vazia de uma vida que, para ele, não tinha o menor sentido.

Depois de uma hora no meio do mato, sem medo, o pensamento ausente como um céu branco infindável, ele começou a se sentir parte da natureza: um bicho, uma árvore, uma pedra, um cupim. Isso lhe deu ânimo para continuar. Enquanto caminhava, enchia os pulmões com o ar frio da manhã, o coração batendo forte, o corpo ardendo dos espinhos e capins que lhe rasgavam a pele e a carne, o sangue escorrendo quente pelas pernas e braços.

De repente, numa pequena clareira, ele parou e viu um urubu. O bicho o encarava com olhar firme do alto de um enorme pé de jatobá. Ramon não tirava os olhos da ave, que esticou o pescoço pelado para frente, o bico fechado, as garras trancadas com força no galho da árvore, esperando.

Os olhos do bicho brilhavam e pareciam dizer alguma coisa. Chamavam. Sim. Alguma coisa dentro de Ramon sentia um chamado. E ao mesmo tempo, o que sentia o chamado dentro dele parecia se converter em fogo. Algo rosnando. Um uivo. Um bicho…

Um bicho que ouvia e entendia o chamado de outro bicho.

Ramon então fugiu desesperado, com medo de viver aquilo, de ser o que dentro dele ardia em chamas. Corria aflito, abrindo caminho por entre os arbustos, enquanto a mancha escura do urubu se movia lentamente acima da neblina espessa, acompanhando sua presa pela mata.

Um chamado…

De repente, Ramon parou de correr, encostou-se numa árvore e esperou. O urubu pousou perto dele, em cima de um enorme cupim, e o encarou com olhos de fogo.  

Dentro de Ramon um vulcão extinto acordava. Bicho feroz. Loucura selvagem.

Soltar esse bicho seria correr o risco de um morticínio em larga escala, tamanha era a selvageria e a vontade de matar, de estraçalhar. Mas a descoberta desse bicho (e sabê-lo vivo), mesmo enjaulado, dava ao rapaz um prazer indescritível. Uma vontade de viver que ele jamais tinha sentido.

Nas reuniões e eventos sociais que ele normalmente participava por obrigação, para “ganhar a vida” (como se diz), por trás da cordialidade sombria que era a sua marca registrada, rosnava o animal selvagem – questionador, sarcástico, insolente, irônico, petulante, desafiador das regras –, e era isso que lhe dava forças para continuar vivendo e sendo Ramon, o respeitável.

O bicho dentro da jaula via tudo através da máscara da boa educação, do olhar mortiço e sonso do homem civilizado (esse homem incapaz de gritar para fora, de matar e trucidar). Mas por dentro… Por dentro garras e dentes afiados brilhavam e tremiam ávidos de sangue. E cada vez com mais frequencia, um uivo aterrador quebrava o silêncio daquele poço sem fundo que era a alma de Ramon… Um uivo de selvageria, desespero e nojo. Nojo de quê? Do artificialismo da sociedade, do seu jogo de interesses, da hipocrisia, da maldade estratégica, da arrogância estúpida e vazia, da bajulação, da subserviência, da pobreza de espírito da maioria das pessoas que cercavam o jovem Ramon em seu mundo ordeiro e civilizado. Ele próprio, Ramon, muitas vezes foi mordido por querer ser como os outros… Por querer jogar e vencer os joguinhos efêmeros dos outros. E mesmo assim ele continuava… Sangrando por dentro.

Mas era só de vez em quando que esse uivo escapava das trevas interiores de Ramon para o mundo real e civilizado. Dentro de Ramon ele vibrava forte. Mas do lado de fora, no contato com a sociedade, a crosta artificial da boa educação impedia que ele explodisse em ódio real e sanguinário. Normalmente era assim.

Excepcionalmente, porém, mesmo enjaulado, quando recebia o alimento certo na hora certa, o bicho soltava um uivo tão forte que a crosta não resistia.

Uma brecha se abria.

E Ramon escrevia…  

Textos incômodos e perturbadores…

Mas isso não passava de uma válvula de escape. Para não explodir. Não era nada perto do que o animal queria. Nada.

O alimento certo na hora certa?

A hora certa é um mistério.

Mas o alimento é simples.

O que alimentava esse bicho eram objetos culturais convertidos em energia pelo espírito de Ramon:

Bons vinhos, bons livros e boa música.

Ramon não estava mais sozinho.

Para escrever esse texto inspirei-me em duas grandes obras da literatura mundial: “O Lobo da Estepe” (1927), de Hermann Hesse; e “Perto do coração selvagem” (1944), de Clarice Lispector.

Leia outros textos de Flávio Marcus da Silva na coluna Crônicas de um patafufo.

Acesse a página de Flávio Marcus da Silva

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