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As crianças de Terezin

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Por Flávio Marcus da Silva
Doris terminou seu desenho e o entregou à professora. Eram 5 horas da tarde no campo-gueto de Terezin, aldeia militar localizada a 60 quilômetros de Praga, na antiga Tchecoslováquia. Doris tinha 11 anos e era judia, por isso estava ali, longe de casa, aguardando não sabia o quê. A professora se chamava Frida, era uma artista, ex-aluna de Paul Klee e Wassily Kandinsky, e também judia.

Os nazistas permitiam que as crianças de Terezin tivessem aulas de desenho, pintura, canto, história e línguas, porque Terezin era uma espécie de campo-vitrine do Reich, onde os judeus eram mostrados, em propagandas, como se estivessem numa estação turística. Mas era só fachada. Em Terezin, cerca de 60.000 judeus foram concentrados em alojamentos que, antes da guerra, abrigavam apenas 3.500 soldados. Má nutrição, péssimas condições de higiene, doenças, falta de remédios e violência física e psicológica marcaram o cotidiano dessas pessoas.

Doris só queria voltar para casa, rever sua família, seus amigos, ir para a escola. Estava triste e cansada. Mas, pelo menos, tinha Frida e suas aulas, que ela adorava.

Luzes apagadas. Fazia frio onde Doris dormia. Seu corpo magro tremia sob um fino cobertor. Tinha saudades de Praga, de seus passeios no morro do castelo, na praça da sinagoga, nas ruas e becos do velho bairro judeu, onde morava. Despedia-se com alegria de amigos que eram levados embora de Terezin, acreditando que voltavam para Praga, Viena ou Berlim, e, esperançosa, pensava: “Em breve me levarão também”.

Dois dias depois levaram Frida, a professora. Era 2 de outubro de 1944. Ela mal teve tempo de se despedir das crianças, pois o trem para Auschwitz já estava de partida. Mas uma coisa ela conseguiu fazer: pegou todos os desenhos e pinturas que estavam com ela e os escondeu num dos dormitórios, em duas malas.

No dia seguinte, Doris também partiu. Morreu no campo de extermínio de Auschwitz, em 16 de outubro de 1944. Das 15.000 crianças judias que passaram por Terezin, a maioria foi deportada para Auschwitz e assassinada nas câmaras de gás.

Os cerca de 4.000 desenhos e pinturas feitos pelas crianças de Terezin, que Frida escondeu, foram encontrados durante a liberação da Tchecoslováquia pelas tropas aliadas, e hoje se encontram no Museu Zidovské, em Praga.

Crônica inspirada num desenho de Doris Zdekauerová, uma das crianças de Terezin, nascida em 15 de dezembro de 1932 e assassinada em 16 de outubro de 1944, no campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia. Frida também existiu. Foi Friedl-Dicker Brandeis, uma artista e educadora austríaca, nascida em 30 de julho de 1898, em Viena, e assassinada em 09 de outubro de 1944, em Auschwitz.

Imagem: “A casa perdida”, de Kohnova, assassinada aos 13 anos, em Auschwitz

4 comentários

  1. marcio guimaraes barbosa

    Flávio,
    Talvez os seres humanos ainda não conseguiram exceder-se até o nível mais alto e inacreditável de sua crueldade e maldade. Sempre pode-se esperar algo pior como o que tem feito o estado islâmico e seus subgrupos. Mas se perguntarmos os nomes daqueles que perpetraram tais crueldades, pouco se sabe. Quanto às suas vítimas, aqui temos duas: Doris e Frida. Imortais! Lembradas até mesmo numa pequena cidade do interior do Brasil.

  2. Ótima crônica. Cultura acompanhada de uma emoção muito grande. Parabéns , Flávio . Continue nos presenteando com seus conhecimentos.

  3. Paulo Giardullo

    Excelente coluna, trabalhando ficção e realidade na medida certa. Muito triste. Realmente uma “barbaridade”, toda esta questão dos judeus na Segunda Guerra. Embora nem Átila, em todo esplendor de sua maldade empaladora, jamais cogitaria tanta maldade planejada, como os civilizados e avançados homens da Alemanha nazista do século XX. Minha filha leu e se impressionou com O menino do pijama Listrado

  4. Difícil pensar tamanha crueldade.

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