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Uma bela senhora

umabelasenhora
Onze e vinte da manhã. Estou na academia. Da esteira onde corro vejo uma bela senhora na bicicleta pedalando animada enquanto assiste a uma reportagem do programa encontro com Fátima Bernardes. Observo-a discretamente, imaginando que vida ela deve ter fora daqui, se tem marido, filhos, netos, se já fez alguma cirurgia plástica, se toma antidepressivo… Ela parece feliz. Não diria que é gorda, mas também não é magra. Está no ponto. Bonita. Bem cuidada. A idade eu chutaria sessenta e três. Chegou antes de mim e pegou justo a minha bicicleta, a única que tem assento com encosto. Logo hoje que eu começaria Os Demônios, de Dostoievski…

Correr sem sair do lugar suando com Fátima Bernardes… Que tortura! Na bicicleta pelo menos eu leio…

Tédio, tédio, tédio, tédio… De repente a bela senhora enfia o dedo no nariz. Tira e olha para ver se veio alguma coisa. Nada. Tenta o dedo mindinho. Nada de novo. Deve ser um daqueles catarros grandes, endurecidos por cima e moles por baixo, pegajosos, que ficam presos no fundo e que, quando a gente assoa mais forte o nariz, fazem um barulhinho parecendo que vão sair, mas não saem de jeito nenhum.

Ela vira para o meu lado, fingindo olhar o ventilador. Em seu rosto leio a pergunta: “Será que ele viu?”. Finjo que estou concentrado na reportagem, que mostra uma baleia encalhada numa praia do sul com pessoas ao redor conversando e rindo. A senhora parece tranquila. Deve achar que eu não vi nada por causa da televisão. Então ela tenta de novo: enfia o dedo com vontade, tira, olha, assoa, tampa uma narina e assoa de novo, mas nada, a coisa não sai.

Finalmente ela consegue soltar o catarro. Com cuidado, puxa-o para fora com os dedos em pinça. É enorme. Mesmo de onde estou consigo ver a crosta escura por cima e a massa mole por baixo, ocupando quase um terço do seu dedo indicador. Que nojo… Uma mulher tão bonita e fina segurando uma meleca na ponta do dedo é realmente uma imagem desoladora…

Mas por quê? Eu não faço coisa muito pior? Nós todos não fazemos?

Tento refletir, mas não adianta. O encantamento se quebrou. Para continuar sendo a bela e distinta senhora na bicicleta ela não poderia nunca tirar uma meleca do nariz com o dedo e… O quê? O que ela está fazendo? Não… Não… NÃO!

Flávio Marcus da Silva

Imagem: “Roots” (1943), de Frida Kahlo (1907-1954)

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