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Um roubo inusitado

orquidea_flor
Por Ana Cláudia Saldanha

A rua toda calçada de paralelepípedos. Casinhas miúdas, escoradas umas nas outras. Uma vizinhança centenária. As janelas, como olhos das casas, olhavam a tudo e todos que passavam. Um ar de coisa antiga as rodeava. Rua estreita de calçada mais estreita ainda. Nesta rua, vizinho era mesmo o parente mais próximo. Nos quintais das casas desta rua, além de jabuticabeiras, havia galinheiros. Uns galos pra acordar o sol, umas galinhas poedeiras. Havia também, em uma das casas da rua, que tinha uma espécie de sótão, uma porção de morcegos. Como as casas eram antigas, apareciam, vez por outra, escorpiões. Não havia muitas crianças. Os moradores, quase maioria, eram adultos ou idosos. É que a rua ficava no centro da cidade. E no centro, quase nunca, mora casal recém-casado. Gente que está começando a vida.

A rua tinha um jeito de matrona e, bem ao meio, fazia uma curva inesperada, uma espécie de cotovelo que a dividia em duas. De um lado estavam os moradores mais antigos. Gente que havia herdado a casa, gente que ali estava desde criança, gente que nunca saiu dali, gente que conhecia todo mundo pelo sobrenome. Do outro lado do cotovelo, estavam os que alugaram a casa, os mais jovens, os que abriram negócios ali mesmo.

E foi nesta rua que algo inusitado aconteceu. Apareceu por lá um ladrão. As casas já não ficavam de portas abertas como outrora. Também as janelas baixas eram obrigadas a ficarem fechadas. Mesmo que por lá não houvesse, até então, caso de ladrão (que todos saibam), mas os noticiários cismavam a todos e a violência do país bem poderia entrar casa afora sem pedir licença, e os moradores, gente vivida, não queriam remediar. Mas o ladrão cismou de entrar bem à tardinha.

Já na sala, ele viu um oratório. Fez o sinal da cruz e beijou a fitinha do santo. Entrou com aquele caminhado de ladrão, aquele jeito de ladrão, aquele cuidado de ladrão, aquele coração batendo forte. Esbarrou em uma vassoura fora do lugar, mas conseguiu não fazer barulho. Deu de cara com uns biscoitos saídos do forno e sentiu um cheiro de infância. Saiu pela porta da cozinha e vislumbrou a coisa mais preciosa que até então nunca vira: uma orquídea.

A planta estava presa a pilastra da “coberta” e uma única flor pendia singela. Era linda! Ele se deteve por longo prazo tendo em vista que o prazo de ladrão é meros minutos, quiçá segundos. Ele ganhou um ar monacal e passou de leve as pontas dos dedos rudes nas pétalas da flor. Seu gesto era quase uma oração. Não teve dúvida, ali estava a joia mais cara, mais rara, mais preciosa que já vira. Desamarrou o arame que prendia a planta à madeira da pilastra e quando estava para concluir seu ato vil e desumano, a dona da casa apareceu e deu um grito de horror. O homem, a princípio, não sabia o que fazer. Sua reação primeira foi saltar o muro, ganhar a rua, correr o mais que pudesse, levando com cuidado o roubo precioso. E assim fez.

Mas a orquídea não resistiu aos arrancos e deixou cair sua única flor já no primeiro salto. Ele seguiu assustado.

Com o grito, toda a vizinhança apareceu. Um zunzum encheu o silêncio e a polícia foi chamada e foi feito assim o boletim de ocorrência. Alguns moradores diziam ser um absurdo, roubo de orquídea?! Se ao menos fosse roubo de galinha pra matar a fome dos filhos… Outros diziam que o rapaz devia ser louco. Havia os que pensavam que talvez fosse um homem apaixonado que queria presentear a amada, mas também isso não justificava. Não havia resposta para o roubo.

No dia seguinte, as manchetes dos jornais anunciavam: Ladrão de Orquídea ataca em rua calma no centro da cidade.

A dona da orquídea roubada resolveu que não queria mais flor. Acabou com suas samambaias, com as hortênsias, azaleias, marias-sem-vergonha, beijos, cravos… Mas o que ela nem imaginava era que o ladrão pretendia mesmo voltar. Não para roubar flores e sim um pote de açúcar mascavo que ele viu sobre a prateleira da cozinha.

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