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Ramon e a Sacolinha Retrô

Por Flávio Marcus da Silva

No dia seguinte à festinha de aniversário de oito anos do seu filho, Ramon foi sumariamente excluído do Grupo de Pais da turma do menino no WhatsApp. “O que será que aconteceu?”, perguntou Ramon à esposa. Ela sabia a resposta, mas preferiu não dizer; estava muito cansada, não queria discutir. “Fiz tudo direitinho, não fiz?”, continuou Ramon. Silêncio.

À noite ele perguntou ao filho se tinha corrido tudo bem na escola e o menino disse que não, que os coleguinhas ficaram rindo dele, cochichando e rindo, e que alguns nem quiseram conversar com ele. “Mas isso é bullying, não pode”, disse Ramon, indignado. “Amanhã vou ligar para a diretora”.

Onze e meia da noite. Ramon não conseguia dormir. “Será que aconteceu alguma coisa na festa ontem?”, ele se perguntava. “Não… Foi perfeita. Organizei tudo com tanto carinho”, pensou Ramon. Bolo de chocolate com enfeites do filme O Massacre da Serra Elétrica, Palhaço Zumbi, Caça ao Cadáver Desaparecido, Luta Livre estilo Jogos Vorazes, batata frita e Coca-Cola à vontade, docinhos em forma de munição para AR-15, Maria-mole em forma de cocô, sacolinha surpresa supercriativa, enfim, tudo que a criançada mais adora! Ele não conseguia entender.

Ramon tomou um comprimido para dormir, mas seu cérebro estava agitado demais. Foi à despensa, pegou uma sacolinha surpresa que tinha sobrado e a abriu sobre a mesa da cozinha. Na verdade era uma MALA surpresa, de tanta coisa que tinha nela. Ramon a chamou de Sacolinha Retrô, pois vinha com doces e brinquedos que quase ninguém vê hoje, mas que as crianças adoravam nos anos 70 e 80: bolinhas de vidro coloridas, Pega Varetas (o original, de madeira), balas Soft, cigarrinhos de chocolate Pan, maquininha de costura com agulhinha para as meninas, revólver de espoleta para os meninos, caixinha de traques (e isqueiro para acendê-los), manual de sobrevivência na floresta, garrafinhas de vidro com líquidos coloridos imitando Coca-Cola, canivete suíço, pôster da Xuxa, Cebion… Qual o problema?

Finalmente o remédio fez efeito e Ramon dormiu.

De manhã, um soldado da Polícia Militar e uma psicóloga do Conselho Tutelar foram à sua casa. “Ai meu Deus”, disse Ramon, abrindo-lhes a porta. “Podemos entrar?”, perguntou a mulher. “Claro”, disse Ramon. Sobre a mesa da sala ela despejou todo o conteúdo da sacolinha surpresa e perguntou: “O que o senhor tem a nos dizer sobre isto?”. Ramon olhou para tudo aquilo, suspirou fundo, coçou a cabeça e disse: “É uma Sacolinha Retrô… Lembra?… Bolinha de gude, revólver de espoleta, traques… Eu era tão feliz naquela época…”.

P.S.: Não me pergunte como Ramon conseguiu aquelas coisas, porque eu não sei.

Um comentário

  1. marcio guimaraes barbosa

    Ramon, bons tempos que não voltam mais. Até os nomes eram mais inocentes: Mirinda, Grapete, Crush, Guaraná Alterosa. Bolinha de gude, bola de meia, brincar de polícia e ladrão. Brincar à noite nas ruas com os vizinhos ou colegas de “outros bairros”. Tanta coisa…

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