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Passeio ao Shopping

passhopNo sábado, depois do feriado, Ramon resolveu levar a família ao Shopping. O tempo estava ótimo, quente, apesar de ainda ser inverno. Saíram por volta de dez da manhã, com a esperança de uma viagem rápida e tranquila. Com o feriado na sexta-feira, todo mundo que tinha que viajar já tinha viajado; e, realmente, quase não havia veículos na estrada. Assim, em menos de uma hora chegaram ao seu destino.

Onze da manhã, corredores vazios, praça de alimentação só com um ou outro gato pingado. “Que maravilha”, pensou Ramon, quase sem acreditar que passaria o dia com a família no Shopping sem ter que enfrentar filas.

Mas foi só uma ilusão passageira. Do nada, como num passe de mágica, uma multidão apareceu. E uma hora depois, quando Ramon resolveu almoçar, já havia uma fila de quase duzentos metros de comprimento saindo do restaurante japonês, seu preferido. A esposa dava comida ao filho de três anos, que teimava em não comer sozinho, enquanto a filha de sete saboreava em silêncio seu bife com batatas fritas. Enquanto isso, Ramon esperava na fila, apoiando-se ora num pé ora noutro. “Se eu soubesse, teria trazido um livro”, pensou. Meia hora depois, ainda na fila, olhou distraído para a sua mesa. Viu a esposa azul de fome e os meninos chupando a segunda casquinha do McDonald’s. “Calma, Ramon”, disse para si mesmo, desviando o olhar para o buffet de saladas, que parecia um pouco mais próximo.

Finalmente Ramon se serviu e voltou à mesa. Aliviada, a esposa se levantou e pegou uma outra fila, tão grande quanto a que o marido tinha acabado de enfrentar. E foi a conta dele se acomodar na cadeira e começar a comer para o sorvete do filho desabar em cima da mesa, sujando a bolsa da mãe e um livro que ela tinha comprado. Ramon respirou fundo e disse: “Não se preocupe, filho, o papai vai limpar”. Juntou um monte de guardanapos, limpou a bagunça e, antes de colocar o segundo sushi na boca, olhou para a filha que, rindo sem graça, disse: “Não quero mais sorvete, papai”. Ramon respirou fundo mais uma vez (ainda com esperança de salvar aquela tarde no Shopping com a família de um desastre) e disse: “Não se preocupe, filha, o papai vai comer o resto para não desperdiçar”. Pensou em dizer: “Isso é culpa da sua mãe, que mesmo sabendo que vocês não conseguem comer duas casquinhas, compra assim mesmo, só porque vocês insistem, como se o meu dinheiro fosse capim”. Mas não disse. Engoliu de uma vez o resto do sorvete e continuou seu almoço.

Meia hora depois a esposa voltou para a mesa trazendo seu prato com churrasco, arroz, feijão tropeiro e maionese, que ela terminou em menos de dez minutos, porque as crianças estavam impacientes para sair dali, brigavam por qualquer coisa, derrubando copos e talheres na mesa e no chão.

Levantaram-se e foram ao parquinho, onde enfrentaram novas filas e gastaram sessenta reais só com o menino, porque a filha não quis brincar em nada, dizendo que aquilo era coisa de bebê. “Ainda bem”, pensou Ramon.

Em seguida foram à C&A, para a esposa comprar algumas roupas para ela e a filha.

Mulher comprando roupas é o terror. Elas não param nunca de experimentar. O provador devia se chamar Buraco Negro: elas entram e somem; você chama, elas não respondem; é como se estivessem em outra dimensão, onde o tempo se conta em prejuízo dos maridos que ficam do lado de fora: quinze minutos para elas são duas horas para eles. Ramon esperou, esperou e esperou mais um pouco. Devia ter saído, dado uma volta com o filho, mas seu celular estava descarregado e ele ficou com medo de perder a mulher e a filha dentro do Shopping (que, naquele momento, já estava apinhado de gente).

De lá foram às Lojas Americanas, lugar que Ramon costumava achar menos desagradável por causa dos corredores repletos de brinquedos e chocolates, onde ele viajava no tempo, lembrando-se com alegria de quando brincava sem se preocupar com nada e comia chocolates sem culpa. Mas naquele dia foi diferente, pois assim que entraram, viram-se diante de uma nova multidão em fila, dando voltas e mais voltas nos corredores da loja como se aquilo fosse o primeiro dia de venda de ingressos para um show do Rolling Stones. “Você já pode ir para a fila com os meninos enquanto eu pego as coisas”, disse a esposa para o marido. E ele foi. E a fila não andava, os filhos reclamavam, choravam, querendo ir embora; e quando finalmente entraram no “Corredor das Tentações” – onde o consumidor tem ao alcance das mãos qualquer produto supérfluo que ele possa querer comprar para aliviar o ódio e a angústia daquele tempo perdido em pé na fila –, os filhos começaram a pedir tudo que viam: salgadinhos, bolachas recheadas, chicletes, chocolates, balas, bombons, etc., e o pai, nervoso (já sem a menor esperança de salvar aquela tarde com a família no Shopping de um desastre), dizia: “Não. Nem pensar. Eu já disse que não! Calem a boca! Lá em casa eu acerto vocês…”.

E de repente a esposa voltou trazendo um condicionador e duas barras de chocolate. O marido não acreditou no que viu. Olhou para aquilo e disse, com os dentes serrados, tentando disfarçar o ódio: “Você me fez ficar aqui…” (e olhou o relógio) “quarenta e cinco minutos para comprar ISTO?!”. A mulher o encarou, calma, e disse, sem levantar a voz: “Menos, Ramon, menos… Não precisa fazer escândalo em público”.

Vinte minutos depois foram lanchar no Burger King. Na fila, Ramon pediu à esposa que escolhesse os lanches e decorasse o pedido, para não haver confusão no caixa. Ela escolheu, decorou, mas mesmo assim houve confusão: “Qual brinquedinho você quer, filha: o bonequinho que pula ou a japonesinha com máscara?”; “Qual a diferença do Combo 1 para o Combo 2?”; “Pode trocar o refrigerante pelo suco?”; “Você vai querer quatro ou oito nuggets no lugar do hambúrguer?”; “Moço, não consegui ver a diferença do lanche 17 para o 23”. Ramon nem quis escolher nada, estava sem fome; ficou só olhando os meninos, que resolveram montar os brinquedinhos na mesa, enquanto comiam. Foi uma confusão de peças coloridas de plástico misturadas com batatas e nuggets: uma coisa para montar e jogar fora, tipo Kinder Ovo (“mais fácil seria pegar uma nota de vinte reais e rasgar de uma vez”, pensou Ramon).

Quatro e meia da tarde. Hora de ir embora. Na saída do estacionamento, Ramon ficou espantado com a quantidade de carros que entravam no Shopping. Era como se estivessem anunciando em rede nacional que o mundo ia acabar em duas horas e que ali era o único lugar onde a vida seria possível depois da catástrofe.

Dirigindo-se aliviado para a avenida que daria acesso à rodovia, Ramon imaginou a praça de alimentação do Shopping lotada, as pessoas comendo seus tira-gostos, sanduíches, batatas recheadas e sorvetes, bebendo refrigerante, fazendo barulho ao mastigar e engolir, as barrigas se empanturrando, formando gazes. Associou a cena à imagem de um enorme rebanho de vacas, bois e bezerros pastando. Mas balançou a cabeça negativamente, sorrindo: “Nada a ver… Pobres animais…”.

Flávio Marcus da Silva

P.S.: Sábado eu realmente estive no Shopping com a minha esposa, Maísa, e os meus dois filhos, Luísa e Mateus. Tirando aquelas amolaçõezinhas normais, que todos os pais sofrem quando saem para passear com duas crianças pequenas e saudáveis, o passeio foi muito divertido e agradável, bem diferente do que viveu o coitado do Ramon no relato acima. Ramon não sabe viver, está sempre de mal-humor, por isso as coisas não dão certo para ele. Sejamos diferentes! Não vale a pena ser como Ramon. A vida é bela!

Leia outros textos de Flávio Marcus da Silva na coluna Crônicas de um patafufo.

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