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A Morte em “O Cínico”

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Vestindo seu tradicional traje negro, com uma lamparina de querosene acesa na mão direita e o rosto escondido dentro do capuz, a Morte sobe ao palco silenciosamente. Senta-se num canto, com uma guitarra no colo, e logo revela ao público qual será o seu papel na trama: ela tocará a música, a trilha sonora que conduzirá os personagens rumo aos seus destinos. Sua presença se mostrará indispensável, embora não pronuncie uma única palavra em todo o espetáculo.

Essa entrada solene da Morte no palco se dá no início da peça “O Cínico”, de Rony Morais, que movimentou o Teatro Municipal de Pará de Minas nesse último final de semana. Meu papel foi escrever os textos que compuseram essa enorme colcha de retalhos – colorida, diversa, mas harmoniosa, bem costurada: o Cínico, que nos aponta o dedo o tempo todo do palco, insultando-nos, rindo da nossa cara.

Tenho certeza que muita gente gostou do que viu, de verdade. No entanto, nosso principal objetivo não foi agradar, mas incomodar, desconcertar, levando as pessoas a refletirem criticamente sobre a sociedade, seus padrões e regras, suas verdades cristalizadas. Porque a peça é sobre amor, liberdade, igualdade, desapego, compaixão, e explora tudo isso ridicularizando seus contrários, enfiando o dedo em suas feridas, com vontade. No palco, personagens que, em seus encontros e desencontros, expõem sem dó essas feridas, fazendo-as sangrar: o político corrupto movido a dinheiro e poder, a socialite arrogante e fútil, o filho rebelde, o bajulador submisso, o trabalhador pobre e sem futuro…

E a Morte ali, o tempo todo, sentadinha no seu canto com a guitarra… para incomodar. Porque a maioria das pessoas não quer morrer. Mesmo sabendo que não ficarão para semente, elas não querem ser lembradas disso, porque é desagradável. A sensação de impotência diante desse mistério que é a Morte chega a ser humilhante para muita gente, porque a Morte iguala as pessoas. Todos vão morrer, e a vida passa muito rápido para TODOS, não importa o lugar que ocupem na pirâmide social – no fim, tudo desaba. A música que a Morte toca em “O Cínico” todos os personagens dançam… Todos nós dançamos…

Nos textos que deram origem à peça, a Morte está sempre presente, mas ela não tem forma. Colocá-la no canto do palco, vestida de preto, com uma guitarra na mão, foi uma ideia brilhante da equipe do diretor Rony Morais, que também acrescentou a cena dos cães briguentos, representando pessoas manipuladas pelo Cínico – uma ideia do Gleisson Dias –, e outras que, a meu ver, enriqueceram muito o espetáculo. Lembro-me especialmente da bela cena final, em que a Morte vai ao centro do palco e leva um dos personagens, ao som de “Lascia ch’io pianga” (“Deixe-me chorar”), de Handel…

Dedico essa crônica ao músico Silvério Netto, que além de representar a Morte, foi o responsável pela trilha sonora do espetáculo, que ele executou ao vivo, com muito talento.

Flávio Marcus da Silva

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