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Feliz do seu jeito

flzjtSozinho em casa às três da tarde. Doem-lhe as juntas dos braços, mãos e pernas. Sente-as pulsar como pulsam seus lábios quando estão muito ressecados pelo frio, ou um furúnculo prestes a estourar, ou a cabeça quando a angústia é insuportável e ele se enche de café, não dorme e fica vagando pela casa de madrugada feito um zumbi à beira do abismo.

São três e cinco da tarde e sua vida agora é isto: sentir dor e olhar a rua da janela. Um cachorro late no quintal vizinho. O carteiro passa correndo, banhado em suor, cumprindo sua obrigação: oito horas de trabalho por dia, para depois jantar, dormir e amanhã começar tudo de novo.

Três e dez. Sente calor, mas em seu peito a tristeza é um bloco de gelo que não derrete.

Três e vinte e sua vida agora é isto: com dor, olhando a rua da janela, ouve a buzina do padeiro e os cascos do seu cavalo. Mulheres saem à rua com cestas e panos de prato.

Três e meia. Fecha os olhos e vê o brilho da dor pulsante em ondas brancas de luz quebrando a escuridão.

Três e quarenta. Vai até a escrivaninha, tira uma folha e escreve: Júlia. Sua mão treme, a dor é como se agulhas quentes lhe espetassem a carne até os ossos. Quer dizer para a filha que a ama, que a perdoa, que sente muito, mas não consegue escrever. Então vou ligar, diz, e pega o telefone, disca, mas ninguém responde.

Vive sozinho. Não tem amigos. É seco, distante, frio. Mas quem é generoso e se aproxima dele às vezes quebra o gelo e descobre outra pessoa. Poucos fizeram isso, pouquíssimos… E agora ele não tem ninguém.

Quatro da tarde. Toma uma decisão. Põe para tocar um concerto de Mozart, pega um livro de Adélia Prado e abre uma garrafa de vinho. Lê um poema, dois, três, e as palavras, a música e o vinho lhe aquecem o coração. De repente viver não é mais insuportável.

Às quatro e quarenta da tarde já não sente mais dores, sua respiração é leve. Faz um café forte e abre todas as janelas da casa. Pensa em viajar, conhecer Barcelona, Paris. Ler de novo Bolaño e Saramago. Caminhar. Escrever.

Cinco da tarde. Olha-se no espelho e sorri.

Sua vida agora é isto:

Feliz do seu jeito.

Flávio Marcus da Silva

Foto: Solitary Sandpiper

Leia outros textos de Flávio Marcus da Silva na coluna Crônicas de um patafufo.

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