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Fale, ‘Ulysses’

Por Flávio Marcus da Silva

Cheguei à página 336 de Ulysses transformado, mas não sei dizer ainda no quê. Não me sinto leve. Nem chocado. Indiferente, talvez. Uma indiferença pesada… Não quero saber. Cheguei à página 336: “Pressa. Ande devagar. Momentinho mais. Meu coração.” Algumas palavras, algumas frases, e o trecho termina com um peremptório “A salvo!”. Em seguida, um traço, uma linha, o que, para mim, significa pausa para respirar. Parei. Respirei. Deixei o livro descansar um pouco. O calhamaço parecia tremer sobre a mesa. Aquilo… Tentei assimilar a leitura até ali, mas não havia o que assimilar. Os estranhos fluxos de consciência de Leopold Bloom e Stephen Dedalus não são assimiláveis. Montamos e cavalgamos neles, com rédeas firmes, mas a cada cinco, dez páginas eles nos derrubam. Levantamos e montamos de novo, para cair outra vez. E de repente, cadê? A coisa está dentro da gente, vasculhando nossas entranhas…

Mas cheguei satisfeito à página 336… Satisfeito? Não. Satisfeito não é a palavra… Entregue. Gloriosamente derrotado. Indiferente em relação ao mundo exterior, à realidade presente… Sim. Como se minha alma estivesse protegida contra o real, contra dores, medos, opiniões, fracassos… Uma anestesia. De tanto viver a vida interior de dois personagens estranhos, com histórias tão diferentes da minha, em Dublin, há mais de um século, criou-se em mim uma espécie de escudo protetor, uma crosta me isolando do cotidiano, do meu mundo. Eu sei que eu tenho uma vida. Tenho família, profissão. Mas Ulysses me diz não, não se preocupe… tudo passa, tudo é nada… O que viveram Bloom e Dedalus já passou. Aquilo tudo… Aquele dia – as 1.106 páginas de Ulysses se referem a um único dia! –, em 1904, já passou. 2016 já era. 2017 vai passar. Tudo vai passar. Hoje, amanhã… Não importa. Mas e as consequências?…

Como eu disse, cheguei à página 336 e parei um pouco para respirar. E na pausa, Ulysses me dizia não pare, siga. Então eu segui. Entrei num túnel escuro, cheio de vozes. Um túnel que me levou impiedosamente até a página 381. Um verdadeiro corredor polonês… O que foi aquilo? Pancadaria. Um teste de resistência. Ulysses me testando. Só pode. Ulysses sabe bater. Fustigar. Desista, ele diz. Você não consegue.

O assunto era Shakespeare. Não sei nada de Shakespeare. Nunca li Shakespeare. Stephen Dedalus está numa biblioteca com alguns intelectuais conversando sobre Hamlet e Shakespeare. Não entendi nada. Mais de quarenta páginas completamente perdido, lutando contra minha ignorância. Hamlet, Rei Lear e outras peças… Os amores de Shakespeare, seu pai, sua mãe… Quem era Hamlet, na verdade? O próprio Shakespeare?… Não vou desistir.

Sei o que aconteceu:

Ao tentar entender, perdi a magia/estranheza do texto. Vou voltar, mas sem querer entender. Várias vozes… tudo muito nebuloso… Quero sentir o texto agora. Nada de pesquisar sobre a vida e a obra de Shakespeare. Não. Darei a volta e entrarei de novo no túnel, na página 336. Levarei mais pancada, talvez doa mais, mas dessa vez não vou me defender tentando entender. Sem defesa agora. De braços abertos. Recebendo os golpes, sangrando e sorrindo…

Fale, Ulysses

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