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Para ter certeza

ptczEle sozinho embaixo de uma enorme mangueira: olhos fechados, braços abertos, o rosto virado para cima, sentindo a chuva que caía em gotas grossas e geladas sobre seu corpo: o cheiro de terra encharcada, de manga madura pisada e de esterco novo: e a alegria de estar ali, sem ninguém por perto.

Mas nada disso tinha acontecido de verdade. Era só a cena de um conto que ele lia enquanto aplicava uma prova na turma de História. E quando acordou do transe, notou que estava de pé no meio da sala, segurando o livro aberto na frente dos olhos, cheio de susto. Alguns alunos disfarçavam o riso, olhando-o meio de lado; outros esperavam de pé junto ao quadro – queriam entregar a prova e assinar a lista de presença, que ele segurava com a outra mão, o braço ainda estendido.

Ele tinha vivido a cena tão intensamente que, mesmo ao perceber que estava no meio da sala, cercado de alunos, continuou sentindo a água escorrendo pelo corpo, os cabelos molhados, o vento frio e úmido no rosto.

Mas logo passou, e ele se dirigiu à mesa, cabisbaixo.

Ele era assim: Quando lia livros de autores tomados de paixão, escritos com sangue e verdade, ele vivia a trama como se estivesse lá; e se não havia trama propriamente dita (como nos livros de Clarice Lispector), ele sentia as dores, alegrias e inquietações dos personagens como se o espírito do escritor se apoderasse dele todo, dominando-o e libertando-o do seu mundo real para jogá-lo numa teia de memórias e sensações que não eram dele…

Feitiçaria?

De certa forma…

Ele era assim…

Até que uma noite ele sentiu algo se movendo no seu ouvido esquerdo: uma coisa mole e viscosa, muito pequena, que ele tocou com a ponta do dedo mindinho antes dela desaparecer dentro da sua cabeça.

Depois disso, o ato de ler transformou-se para ele numa ação mecânica.

Os livros perderam a magia. Ele não conseguia mais se transportar no tempo e no espaço, sentir o que os personagens sentiam e viver as histórias como antes ele vivia.

“O que está acontecendo comigo?”, ele se perguntava, desesperado, vasculhando as estantes à procura de seus livros preferidos.

Finalmente sentou-se na escrivaninha e fez um teste que lhe pareceu definitivo. Abriu o livro “Laços de Família”, de Clarice Lispector, e releu o conto que mais o tocava: uma história que, a cada releitura, transportava-o para o interior de um bonde no Rio de Janeiro no final dos anos 50, sem ele nunca ter andado de bonde nem estado no Rio de Janeiro.

Não sentiu nada.

Era como ler um manual de Contabilidade ou de Direito Tributário. Texto seco e duro. Sem vida. Sem alma.

Clarice sem alma?

Ele tinha perdido a imaginação…

Tinha perdido a capacidade de representar imagens…

De criar…

De sentir…

“Meu Deus… Tornei-me um técnico!”, gritou, olhando para as estantes repletas de livros.

Tentou outros testes, procurando manter a calma. Mas quando releu “A alma do vinho”, de Baudelaire, e não sentiu nada, desesperou-se.

Na verdade, aquilo não era desespero. Não era tristeza. Não era angústia. Era o quê?

E todos na cidade foram ficando assim: frios e sem imaginação, incapazes de criar, de sonhar.

Suas aulas de História se tornaram objetivas e enfadonhas, só fatos e datas, datas e fatos. Mas era isso que os alunos queriam. Era o que eles podiam suportar, incapazes de analisar e recriar o passado.

Todos os olhos se tornaram opacos e vazios naquela cidade, como em alguns retratos de Modigliani. E todas as pessoas que passavam por lá eram contaminadas pelo que ficou conhecido como “a praga dos olhos”, mas que parecia mais uma coisa de espírito, embora nenhum padre, macumbeiro ou médium tivesse conseguido descobrir do que se tratava.

Até que um jovem neurologista da capital resolveu levar a sério os relatos de alguns doentes sobre algo se movendo em seus ouvidos pouco antes dos primeiros sintomas aparecerem. Começou examinando-os em seu consultório, onde, com a ajuda de uma psicóloga, realizou uma série de testes. Depois de dois meses, conseguiu convencer outros médicos de que a contaminação só acontecia naquela cidade. Por quê? Não sabia explicar. Concluiu que aquilo não era transmissível de pessoa para pessoa, mas originado de uma fonte oculta em algum lugar na cidade, e que, misteriosamente, só afetava quem morava ou passava por lá.

Foi quando o nosso professor de História tornou-se cobaia da equipe formada pelo jovem neurologista da capital, num dos centros de pesquisa em neurocirurgia mais respeitados do mundo.

A escolha dele como cobaia se deveu ao fato de que, em raros momentos, quando tomava café, ele conseguia escrever versos. E muito bonitos! Uma noite ele escreveu um poema inteiro, embora, no dia seguinte, mal soletrasse o próprio nome.

Alguma coisa diferente acontecia com ele. Um mecanismo de defesa, ativado pela cafeína, parecia reagir de alguma forma ao torpor do seu espírito, permitindo-o, por alguns minutos, fantasiar e criar.

E assim foi…

Até que, durante uma cirurgia para estudar um inchaço numa parte do seu cérebro, um neurocirurgião viu, numa fração de segundo, um movimento estranho, de uma sutileza quase imperceptível, numa área bem específica da superfície de sua massa encefálica.

Com uma experiência de mais de trinta anos e uma imaginação acima da média, esse médico disse, com segurança (e para espanto de todos os presentes):

“Isso aqui não faz parte do cérebro dele”.

Todos arregalaram os olhos.

“Vejam”.

Mas ninguém via nada.

O jovem neurologista trouxe uma lupa, olhou bem de perto, com muita atenção, e disse: “Você tem razão, mas como…?”.

“Algo vivo, vindo de fora (um parasita ou sei lá o quê), entrou de alguma forma na caixa craniana e se instalou aqui. Está bem aqui. Mas se parece tanto com o cérebro que… Deve ser por isso que nenhum exame foi capaz de detectá-lo até agora”.

“Mas isso existe?”, um outro médico perguntou.

“Está aqui, não está?”.

E começaram a retirar o misterioso organismo, com muito cuidado. Era pequeno, mole, achatado e estava grudado na massa encefálica por meio de pequenas ventosas, como uma sanguessuga.

Foi difícil, mas conseguiram extraí-lo.

Inúmeras análises foram feitas. Nos Estados Unidos, na Europa, no Japão.

Conclusão: aquilo não era deste mundo.

E o pânico se instalou:

“Seres de outro planeta estão preparando uma invasão. Fazem testes. Descobriram um canal de comunicação entre o cérebro e o espírito, e nele estão instalando suas sanguessugas alienígenas, programadas para destruir a capacidade do homem de criar, transformando-o num robô, numa máquina estúpida, fácil de ser dominada. Estão preparando tudo. É só uma questão de tempo”.

Mas para o nosso pacato professor isso não importava. Ele não ligava para essas teorias malucas. Para ele, o que importava era ter certeza de que a sua imaginação tinha voltado.

Então ele fez um café – que saboreou no quintal, olhando a lua cheia –, e dirigiu-se à biblioteca, caminhando lentamente.

Reuniu alguns livros sobre a mesa, respirou fundo e começou a ler: Adélia Prado, Baudelaire, Drummond, Pessoa, Goethe, Jack Kerouac, Rubem Fonseca…

E ele lia…

E enquanto lia sentia tudo que era possível sentir.

Imaginava.

Criava.

E criando escrevia, cheio de dor e paixão, o mistério de si: longas páginas de luz e sombra…

Um mistério barroco.

Mas faltava uma escritora…

Deslumbrado e feliz, foi buscá-la na estante…

Clarice…

Deixou-a por último…

Para ter certeza.  

Imagem
: Retrato da escritora Clarice Lispector feito pelo pintor Carlos Scliar em 1972.

Leia outros textos de Flávio Marcus da Silva na coluna Crônicas de um patafufo.

Acesse a página de Flávio Marcus da Silva

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